Jé Oliveira e Núcleo Bartolomeu: Reflexões sobre o Teatro Negro e a Resistência Artística

Em meio ao colapso social e emocional dos dias atuais, nesta quarta-feira (20/05), o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos recebeu Jé Oliveira para uma roda de conversa no Instituto Capobianco.

Jé Oliveira, fundador do Coletivo Negro – grupo de pesquisa cênica e étnico-racial-,  é ator, diretor, dramaturgo e pesquisador, consolidando-se como um dos principais nomes do teatro negro brasileiro da última década, por transformar experiências periféricas e negras em linguagem cência potente e poética.

A roda de conversa teve um tom íntimo e de reencontro, uma vez que Jé Oliveira já foi integrante do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. Discorrendo sobre teatro e racialidade, foi retomada a trajetória do teatro negro no Brasil, que surgiu como ato de resistência em um país estruturado a partir da escravidão e pelo apagamento sistemático de vozes negras.

Durante muito tempo, artistas negros foram excluidos dos palcos e limitados a papéis estereotipados, escancarando a reprodução de configurações sociais extremamente injustas e problemáticas também nos espaços artísticos.

O surgimento do Teatro Experimental do Negro, em 1944, marcou uma ruptura histórica ao reivindicar protagonismo negro na cena brasileira, utilizando o teatro como ferramenta política, pedagógica e antirracista. Ao longo das décadas seguintes, o teatro negro consolidou importantes avanços estéticos e sociais, apesar desses avanços coexistirem com retrocessos persistentes, que implicam  dificuldades históricas de financiamento, invisibilização midiática e exclusão dos grandes circuitos culturais.

No encontro, a racialidade no teatro foi abordada junto a diversas outras questões pertinentes ao fazer teatral. O teatro, que nada mais é do que a arte do encontro e da presença, vê-se, nos dias atuais, pressionado a virar conteúdo. Os espetáculos precisam ser cada vez mais “vendáveis”, e o aprofundamento em processos de pesquisa torna-se descartável, uma vez que exige tempo de maturação e o sistema exige pressa.

Encontros artísticos e espaços de diálogo entre artistas das diversas gerações se fazem extremamente urgentes, ao passo que o pensamento crítico torna-se cada vez mais escasso em uma era tecnológica na qual os seres humanos encontram-se isolados e acomodados atrás de seus celulares, redes sociais e IAs. Claudia Schapira, Eugenio Lima e Luaa Gabanini enfatizam a necessidade desses espaços e a vontade de assistir e acompanhar mais de perto as produções e pensamentos de novos artistas.

Luaa chama a atenção para o fato de que até mesmo os grupos teatrais já consolidados continuam o seu fazer artístico em meio às incertezas e instabilidades do cenário teatral brasileiro. Contudo, mesmo quando tudo ao redor parece organizado para impedir sua continuidade, o teatro continua existindo e resistindo.

No momento, o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos realiza ocupação no Instituto Capobianco e apresenta uma programação rica e imperdível, estando em cartaz com a peça “Carta para um tempo que não é agora” e realizando também encontros voltados para o processo dramatúrgico, batalhas de poesia, filmes, rodas de conversa, entre outros.  A programação completa pode ser verificada no site do Instituto Capobianco e no instagram.

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