‘Nadine’: O premiado lirismo policial de Luiza Romão investiga a violência de gênero no Sesc Avenida Paulista

Espetáculo que funde spoken word, atmosfera de filme noir e uma potente arquitetura sonora traz narrativa sobre o feminicídio sob a ótica do pós-vida de uma vítima considerada “não-ideal”.

Após uma aclamada temporada no Sesc Belenzinho, o espetáculo teatral Nadine — idealizado, escrito e interpretado pela poeta e atriz Luiza Romão — prepara-se para desembarcar no coração da capital paulista. A montagem realizará duas únicas apresentações no Sesc Avenida Paulista, nos dias 26 e 27 de junho de 2026, sexta-feira e sábado, às 20h. O trabalho propõe um denso mergulho cênico que costura a poesia falada (spoken word), a estrutura clássica da investigação policial e uma complexa experimentação de áudio para dar voz a um debate urgente e estrutural: a violência de gênero e o feminicídio.

A produção é uma adaptação direta dos palcos para o livro homônimo da autora, lançado pela editora Quelônio e reeditado em 2025. Romão, conhecida por sua contundente pesquisa estética e engajamento político, define a obra como “uma história de detetive contada em versos”. A premissa subverte as estruturas tradicionais do gênero literário noir ao colocar a própria vítima no papel de investigadora. A narrativa acompanha os passos de uma jovem que, após ser brutalmente assassinada, decide desvendar os meandros e as motivações do crime que tirou sua vida.

“Estamos vivendo um momento em que a misoginia está escancarada e os casos de feminicídio estão aumentando muito. Nesse cenário, é fundamental ampliarmos os espaços de debate sobre violência de gênero”, defende Luiza Romão.

A Vítima “Não-Ideal”

A construção dramatúrgica bebe na fonte teórica da filósofa canadense Cressida J. Heyes, cujos estudos jogam luz sobre a violência sexual perpetrada contra vítimas inconscientes ou incapacitadas, analisando os estados de extrema vulnerabilidade associados ao sono e à perda da agência corporal.

“Nadine é uma jovem terrível: faz barulhos de madrugada, incomoda as pessoas, rouba correspondências dos vizinhos”, relata Luiza Romão, ao detalhar as nuances da complexa protagonista. “Certa noite, na saída do bar, ela é dopada com flunitrazepam e assassinada. Por considerá-la uma ‘vítima não-ideal’, a polícia rapidamente descarta o caso, e a personagem passa a investigá-lo no pós-vida com a ajuda dos vizinhos”, revela a autora.

Se a temática evoca o horror da realidade social cotidiana, a encenação busca refúgio estético em uma atmosfera cinematográfica fortemente inspirada no romance policial clássico e na filmografia de diretores consagrados como Quentin Tarantino e Martin Scorsese. Contudo, o grande diferencial técnico da peça reside na total centralidade conferida à dimensão acústica.

Uma Revolução para os Ouvidos

Flertando abertamente com a linguagem histórica das radionovelas, a peça abdica do bombardeio visual contemporâneo para valorizar a percepção auditiva. “Vivemos em um mundo hipermidiatizado, com bombardeamento constante e avassalador de imagens e vídeos. Neste contexto, o espetáculo propõe outro tipo de sensibilidade e percepção, calcado principalmente no ouvido e na escuta”, reflete Romão.

Para erguer esse universo, o renomado músico José Paes de Lira (Lirinha) assina a direção musical e a trilha sonora original. O desenho sonoro consiste em uma paisagem viva composta por vozes, ruídos cotidianos, diários de áudio de vizinhos que moram no mesmo prédio da protagonista e registros de investigações policiais ficcionais. Além disso, há canções inéditas baseadas nos poemas do livro, sintonizadas com as estéticas densas de artistas como Tom Waits e Serge Gainsbourg.

“A trilha original do espetáculo Nadine é composta por vozes de quase duas dezenas de atrizes e atores convidados e paisagens sonoras que dialogam intensamente com a personagem em cena”, afirma Lirinha. O coro de vozes invisíveis gravadas inclui um elenco de peso, como Roberta Estrela D’Alva, Eugênio Lima, Daniel Sharp, Lilith Cristina, Michael Nazarkovsky e Verónica Colasanto.

No plano visual, a cenografia e a iluminação concebidas por Marisa Bentivegna operam em constante dualidade. O cenário transita entre o sufoco do ambiente doméstico — estatisticamente o espaço de maior perigo para as vítimas de violência doméstica — e a vastidão artística do Museu do Prado. Neste último, o público acompanha um áudio-guia fictício que analisa as representações de corpos femininos em telas de grandes mestres como Diego Velázquez, Francisco de Goya e Tintoretto, tensionando as fronteiras históricas entre o sono, a vulnerabilidade e o sofrimento retratados na história da arte ocidental.

SERVIÇO

  • Espetáculo: Nadine
  • Datas: 26 e 27 de junho de 2026 (Sexta-feira e sábado), às 20h
  • Local: Sesc Avenida Paulista – Av. Paulista, 119 – Bela Vista, São Paulo/SP
  • Duração: 50 minutos | Classificação indicativa: 16 anos
  • Ingressos: R$ 50,00 (inteira); R$ 25,00 (meia-entrada); R$ 15,00 (credencial plena do Sesc).
  • Vendas: Online pelo Portal Sesc SP a partir de 16/06 às 17h; Presencial nas bilheterias das unidades a partir de 17/06 às 17h.
  • Alerta de Conteúdo: O espetáculo aborda temas sensíveis, como violência sexual, trauma e feminicídio.

FICHA TÉCNICA

  • Texto, encenação e performance: Luiza Romão
  • Direção musical e trilha sonora original: José Paes de Lira (Lirinha)
  • Assistência de direção e preparação vocal: Monica Montenegro
  • Luz e cenário: Marisa Bentivegna
  • Figurino: Claudia Schapira
  • Mixagem de som: José Paes de Lira e Adriano Duprat
  • Coreografia: Eloísa Honorato
  • Desenho de som: João Souza
  • Operação de som: Elektra Blue
  • Produção: Iramaia Gongora
  • Fotos de divulgação e espetáculo: Tamara dos Santos e Cristina Maranhão

Artigo apoiado por:

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