Inspirada no imaginário medieval de Hieronymus Bosch, série de pinturas investiga as infiltrações da teocracia no cotidiano e a transformação da crença em ferramenta de normatização política na era digital.
A partir do próximo dia 20 de junho, a Galeria Mário Schenberg, localizada no Complexo Cultural Funarte SP, recebe a exposição individual “Que diabos!”, do artista plástico Alex Frechette. Composta por uma série inédita de pinturas, a mostra propõe um debate urgente e esteticamente refinado sobre o avanço de discursos autoritários baseados na fé e as crescentes pressões que incidem sobre o Estado laico na contemporaneidade.
O eixo central da exposição investiga minuciosamente o momento preciso em que a religiosidade deixa de habitar estritamente a esfera íntima dos indivíduos para se transformar em um mecanismo institucionalizado de controle social e normatização de condutas. A sensação de asfixia diante de sistemas de pensamento dogmáticos, que gradativamente tentam moldar as decisões do espaço público e privado, serviu como o principal combustível criativo para a produção do artista.
Para traduzir visualmente esse cenário de tensões, Frechette dialoga diretamente com o legado iconográfico do pintor holandês Hieronymus Bosch. O moralismo e os temores apocalípticos do final da Idade Média são cirurgicamente deslocados para o século XXI — um presente hiperconectado e marcado por telas onipresentes, proliferação de desinformação em massa e messianismos midiáticos. O resultado dessa fusão histórica é o desnudamento da convergência contemporânea entre poder teocrático, tecnocracia e espetáculo político.
“‘Que diabos!’ surge como um manifesto visual em defesa de um direito fundamental: a liberdade de acreditar ou de não acreditar, garantindo que as convicções pessoais de um grupo jamais se convertam em ferramentas de coerção ou em instâncias de poder governamental.”
As telas trazem à tona figuras híbridas e perturbadoras. Trata-se de seres simultaneamente humanos, animais e maquínicos que habitam um território visualmente ambíguo, suspenso entre o arcaico e o pós-humano. Nessas composições, os símbolos tradicionais da crença e os fluxos do capital financeiro se misturam, sendo entronizados como as novas divindades soberanas da era digital. A iconografia construída por Frechette funciona, assim, como um espelho crítico e desconfortável do nosso próprio tempo.
A mostra possui classificação indicativa livre e entrada inteiramente gratuita, reafirmando o compromisso da Funarte com a democratização do acesso à cultura de vanguarda. A visitação pode ser realizada até o dia 19 de julho, de quarta a domingo, oferecendo ao público paulistano uma oportunidade ímpar de reflexão política por meio da força expressiva da pintura contemporânea.
Serviço:
- Exposição: Que diabos!
- Artista: Alex Frechette
- Local: Galeria Mário Schenberg – Complexo Cultural Funarte SP
- Período: De 20 de junho a 19 de julho
- Horário de Visitação: De quarta a domingo, das 14h às 19h
- Classificação: LIVRE
- Entrada: GRATUITA
