A beleza em Disputa

A moda sempre soube fabricar imagens com precisão cirúrgica. O que ela ainda não domina por inteiro é a capacidade de reconhecer que toda escolha de enquadramento também é uma forma de exclusão.
Durante décadas, editoriais de moda, campanhas publicitárias, passarelas e produções audiovisuais sustentaram uma mesma gramática invisível: a de que beleza seria uma combinação restrita de proporção, funcionalidade corporal e ausência de marcas que escapassem ao padrão dominante. Essa gramática não precisava ser explicada, ela se repetia até parecer natural. E, justamente por isso, tornou-se uma das formas mais eficientes de organizar o que podia ou não ser desejado.
Nesse sistema, a deficiência foi tratada como interrupção do ideal visual. Quando aparecia, raramente ocupava o centro sem mediação. Quase sempre vinha acompanhada de um enquadramento secundário, como se o olhar precisasse ser protegido daquilo que via.
Essa realidade passa por algumas mudanças.
A entrada de pessoas com deficiência em editoriais de moda, campanhas publicitárias, passarelas e produções audiovisuais não opera mais apenas como gesto de inclusão. Em diferentes pontos da indústria visual, esses corpos passam a ocupar o centro da composição sem serem convertidos em exceção, curiosidade ou explicação. O que se desloca não é apenas a imagem, mas a autoridade silenciosa que definia quem podia ser considerado esteticamente incontestável.
A modelo com nanismo Ariete Angotti descreve essa mudança a partir de sua experiência dentro da indústria:
“Por muito tempo, eu entrei em espaços como se precisasse provar que merecia estar ali. Hoje, quando estou em um ensaio, não sinto que meu corpo está sendo explicado. Ele está sendo construído como imagem, como estética, como presença real. Isso muda tudo.”
Na publicidade, essa transformação não se limita à representatividade visível. Ela atinge o núcleo do que se entende como desejável. Marcas começam a lidar com uma ruptura que não é apenas estética, mas estrutural: o reconhecimento de que repetir um único tipo de corpo não amplia o alcance da beleza, apenas restringe o campo do imaginável.
Paulo Henrique dos Santos, publicitário com paraplegia avalia essa mudança como deslocamento de valor:
“Quando você não vê corpos como o seu na publicidade, você entende rapidamente qual é o padrão de valor. Estar nesses espaços não é só sobre aparecer. É sobre alterar o que é considerado desejável. A imagem tem poder de reorganizar o olhar coletivo.”
No audiovisual, essa transformação atinge outro nível de complexidade: a forma como a presença é sustentada em cena. A atriz Marina Duarte observa esse movimento a partir de sua prática:
“No cinema e na televisão, durante muito tempo, a deficiência era um recurso de explicação. Hoje, quando estou em cena, o que está em jogo não é explicar a minha condição, mas sustentar a minha existência como personagem complexa. Isso muda a forma como o público aprende a olhar.”
O que atravessa essas falas não é uma soma de experiências individuais, mas um deslocamento mais amplo na própria estrutura do visível. A presença de corpos com deficiência em espaços historicamente restritos não funciona como reparação simbólica nem como sinal de avanço linear. Ela reconfigura o território onde o reconhecimento acontece.
A imagem, nesse contexto, deixa de ser apenas superfície de exibição e passa a operar como campo de disputa: entre o que foi naturalizado como padrão e o que insiste em existir sem tradução prévia.
E talvez seja justamente aqui que o gesto mais desconfortável se imponha: se a beleza sempre foi definida por aquilo que o olhar aprende a repetir sem hesitar, o que acontece quando ele é obrigado a reconhecer, de forma irreversível, que já não existe um único corpo capaz de sustentá-la?

Texto e fotos: Kica de Castro

Maquiagem: André Lima

“Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens.” (Colossenses 3:23)

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