Meu Nome é Agneta”: quando a gente percebe que deixou de existir para caber na vida dos outros

*Por Rafael Souza

O filme Meu Nome é Agneta, disponível na Netflix, parece simples à primeira vista, mas carrega uma discussão profunda sobre saúde mental, identidade e liberdade emocional. A história acompanha Agneta (Eva Melander), uma mulher beirando os 50 anos que vive há décadas presa a uma rotina entediante, trabalhando no departamento de trânsito de sua cidade e sustentando um casamento que parece existir mais pelo costume do que pela conexão real.

Apaixonada pela cultura francesa, ela guarda em silêncio o sonho de viver na França. Mas, como acontece com muitas pessoas ao longo da vida, seus desejos foram ficando em segundo plano enquanto ela ocupava papéis: esposa, mãe, cuidadora. Em algum momento, Agneta deixou de ser apenas ela mesma.

O filme mostra de forma muito delicada como o apagamento de si nem sempre acontece de maneira brusca. Às vezes, ele surge aos poucos, dentro da rotina, quando uma pessoa passa anos tentando corresponder às expectativas dos outros e se desconecta da própria subjetividade.

Tudo começa a mudar quando Agneta decide aceitar uma vaga de Au Pair na Provença para cuidar de Einar (Claes Månsson), um senhor idoso que também carrega marcas importantes da própria trajetória. Distante da atmosfera sufocante em que vivia, ela começa a experimentar pequenas coisas antes reprimidas: o prazer, o desejo, a liberdade de existir sem culpa e até uma nova relação com o próprio corpo.

Na perspectiva da saúde mental, o filme toca em algo muito humano: o sofrimento causado pela constante anulação de si mesmo. Não necessariamente uma tristeza evidente o tempo inteiro, mas um vazio silencioso, uma sensação de desconexão consigo.

Existe também um encontro muito bonito entre Agneta e Einar. Os dois carregam culpas diferentes, mas igualmente humanas. Enquanto ela se arrepende de não ter buscado sua liberdade antes, ele se culpa justamente por ter escolhido viver a própria verdade e, no caminho, ter perdido momentos importantes da vida do filho. O filme não tenta decidir quem está certo ou errado, e talvez essa seja sua maior maturidade.

Talvez o mais forte em Meu Nome é Agneta seja perceber que a liberdade não aparece como algo grandioso, mas como a possibilidade de finalmente respirar sem precisar pedir permissão para existir.

De certa maneira, o filme conversa com muitas pessoas que, em algum momento da vida, perceberam que estavam vivendo no automático. Pessoas que permaneceram em relações, trabalhos ou versões de si mesmas mais por medo, costume ou comodismo do que por felicidade real.

Talvez, por isso, a película nos toque tanto. Ela não fala apenas sobre recomeçar. A obra cinematográfica fala sobre a coragem, difícil e dolorosa, de voltar a existir como si mesma (o).

*Fisioterapeuta da Holiste Hospital Dia / @holistepsiquiatria

Crédito da foto : Divulgação / Holiste Psiquiatria

Verônica Macêdo

Artigo apoiado por:

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