Fotografo pessoas com deficiência há mais de vinte anos. Em quase todo ensaio existe um instante em que algo muda. Não no corpo, mas na maneira como a pessoa passa a ocupar a própria imagem. É quando ela começa a se ver sendo vista.
Alguns chegam tranquilos. Outros chegam explicando o próprio rosto antes mesmo da luz acender, como se precisassem justificar a forma antes da fotografia existir.
Já vi gente dizer que se aceita enquanto revisa a própria aparência como quem confere se ainda está tudo sob controle. Não é sobre redes sociais. É sobre o espaço entre ser visto e conseguir permanecer ali.
Há quem se diga tímido e, ainda assim, sempre espera do olhar do outro. Quando esse olhar não vem, o silêncio parece ocupar mais espaço do que a própria ausência.
No estúdio, isso aparece antes da fotografia. Um sorriso que chega antes da pessoa. Um corpo que posa antes de respirar. Às vezes, o retrato só acontece quando a necessidade de parecer finalmente cansa.
Entre pessoas com deficiência, existe uma cena recorrente que raramente recebe um nome: o esforço permanente de representar mais do que a si mesmas. Ser inspiração, exemplo ou querer o título de superação. Não porque tenham escolhido esse papel, mas porque ele lhes foi entregue. O desgaste dessa expectativa quase nunca aparece na imagem final.
Também encontro o movimento contrário. Há quem transforme até uma pergunta em ameaça. A escuta deixa de ser encontro e passa a ser defesa.
Nem toda crítica fala sobre você. Mas também nem toda crítica está errada.
Depois de tantos retratos, aprendi que quem passa tempo demais sustentando uma versão de si começa a reconhecer apenas as vozes que a confirmam. O eco nunca amplia ninguém. Apenas impede que outra voz entre.
A câmera nunca me mostrou um rosto perfeito. Mostrou o instante em que alguém deixa de sustentar uma explicação e, por alguns segundos, simplesmente existe.
Aceitar o corpo não é defendê-lo. É deixar de colocá-lo em julgamento. Há uma diferença silenciosa entre viver uma existência e passar a vida tentando justificá-la.
Se este texto encontrou algo que você evita nomear, talvez essa já seja a parte mais importante da leitura.
E, se em algum momento perceber que não consegue atravessar isso sozinho, pedir ajuda talvez não seja um ato de fraqueza nem de coragem. Talvez seja apenas a decisão de parar de lutar contra si mesmo.
O espelho não faz perguntas.
E, mesmo assim, quase todo mundo responde.
Viver Eficiente: O Espelho Não Faz Perguntas

Kica De Castro- 3 de julho de 2026
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