Oito gravuras de Matisse roubadas da Biblioteca Mário de Andrade são recuperadas; cinco Portinaris seguem desaparecidos

O que parecia um caso perdido ganhou um desfecho digno de filme nesta semana. A Polícia Civil de São Paulo recuperou oito gravuras de Henri Matisse roubadas da Biblioteca Mário de Andrade, no Centro da capital, em dezembro de 2025. O acervo, avaliado por especialistas em cerca de R$ 1 milhão, foi localizado em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. A boa notícia, contudo, vem com uma sombra: cinco gravuras de Candido Portinari continuam desaparecidas — e o homem que planejou o crime é um personagem conhecido: autodenominado especialista em “fazer circular mercadoria rara pelo mundo”, ele já foi preso diversas vezes e é apontado como o maior ladrão de obras de arte do Brasil.

O crime aconteceu em 7 de dezembro de 2025 — e o timing escolhido pelos criminosos era calculado: o assalto ocorreu justamente no último dia da exposição “Do livro ao museu: MAM São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade”, quando a movimentação de entrada e saída de obras era intensa. No total, foram levadas treze peças: oito ilustrações da série “Jazz”, de Matisse, e cinco gravuras produzidas por Candido Portinari para ilustrar a obra “Menino de Engenho”, de Graciliano Ramos.

As imagens da época, que circularam por todo o país, mostravam os ladrões em plena rua do Centro, transportando as obras em plena luz do dia — um dos responsáveis até trocou de roupa três vezes para confundir a polícia. Na ocasião, o curador-chefe do MAM, Cauê Alves, informou que o valor do seguro era mantido em sigilo contratual, e a Secretaria da Cultura destacou que as peças carregam valor cultural e histórico que “não pode ser mensurado apenas pelo aspecto financeiro”.

A investigação, conduzida pela Operação Marchand deflagrada em maio, apontou Laéssio Rodrigues de Oliveira como mentor intelectual do roubo. Conhecido das autoridades como “o maior ladrão de obras de arte do Brasil”, ele tem um histórico que mistura erudição e crime — e que foi tema do documentário “Cartas para um Ladrão de Livros”, exibido pelo Globoplay.

O detalhe mais curioso da biografia de Laéssio está na própria vítima do crime: ele foi estagiário da Biblioteca Mário de Andrade em 2004, quando estudava biblioteconomia. Segundo o relatório da investigação, o mentor fez pesquisas intensas sobre o acervo da biblioteca e sobre a coleção “Jazz” de Matisse meses antes do assalto — um plano de longo prazo, alimentado por conhecimento insider.

Para não ser reconhecido, já que é uma figura notória no meio cultural, Laéssio não participou da execução. A polícia descobriu um áudio em que ele combina um encontro com o executor do crime, identificado como Gabriel, na estação Sé do Metrô. No celular do mentor, o contato do assaltante estava salvo sob o codinome “Aphonso Hazuck – gravuras” — e, em outros áudios apreendidos, ele se vangloria de sua política: “fazer circular a mercadoria pelo mundo”.

O cerco se fechou nesta semana. Na quinta-feira (13), a Polícia Civil prendeu João Paulo Linhares de Araujo, de 44 anos, o quarto preso do caso. Três outras pessoas já estavam detidas, entre elas o próprio Laéssio — que já estava preso desde 20 de abril, flagrado tentando corromper um segurança do Instituto Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, para praticar um novo furto —, seu companheiro Carlos Leandro Ferreira da Silva e a estudante de direito Regiane Rodrigues da Silva, apontada como intermediária entre o mentor e o executor.

Há um detalhe que revela a sofisticação da rede: um dos presos é reincidente em roubos de obras de arte no Brasil. Segundo os investigadores, a suspeita é de que a rede criminosa já estivesse articulando o escoamento clandestino do acervo para colecionadores ou leilões — possivelmente no exterior — antes mesmo de a recuperação acontecer.

As obras recuperadas são do artista francês Henri Matisse e faziam parte do conjunto levado pelos criminosos. Ainda seguem desaparecidas cinco gravuras de Candido Portinari.

O retorno das gravuras de Matisse é uma vitória para o patrimônio cultural brasileiro — e também um alerta. Obras roubadas de instituições públicas frequentemente terminam em coleções privadas clandestinas ou em leilões internacionais, de onde raramente voltam. Cada peça recuperada é, na prática, uma obra devolvida ao público.

Vale lembrar que estas mesmas obras de Matisse já tinham uma história de crime no currículo: antes de serem roubadas da Biblioteca Mário de Andrade, elas já haviam sido furtadas, falsificadas e recuperadas pela Polícia Federal na Argentina. Essa trajetória torna o valor histórico do acervo ainda mais singular — e explica por que ele atrai criminosos especializados.

PeçaSituação
8 gravuras da série “Jazz” (Matisse)Recuperadas em São Bernardo do Campo (13/08)
5 gravuras de Portinari (“Menino de Engenho”)Continuam desaparecidas
Valor estimado do acervoR$ 1 milhão (especialistas)
Presos no caso4 (incluindo o mentor Laéssio, desde abril)

A investigação prossegue em três frentes: a localização das cinco gravuras de Portinari, a identificação de possíveis compradores ou leilões no exterior e o julgamento dos envolvidos. A Secretaria da Cultura, por sua vez, já sinaliza que o acervo recuperado será restituído ao museu — e a expectativa é de que as obras de Matisse voltem ao público em breve.

Para quem visita bibliotecas, museus e exposições, o caso também é uma lição sobre o valor invisível da cultura pública: atrás de cada gravura em uma parede há uma história de acervo, curadoria e memória. E, como mostrou este caso, há também quem enxergue nelas apenas “mercadoria” para circular pelo mundo. A diferença entre os dois olhares é, no fundo, a diferença entre quem preserva e quem destrói a cultura.

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