Neste sábado (15), o Brasil celebra a data. Mas poucos conhecem o computador que mudou a tecnologia nacional — e quase desligou na própria inauguração.
Hoje, 15 de agosto, é o Dia da Informática no Brasil. E a data merece uma viagem no tempo — porque a história da computação nacional tem personagens inusitados: um jatinho batizado de Cisne Branco, um pato que deu nome a um computador e até Pelé como garoto-propaganda de um PC brasileiro. Tudo começou há quase 70 anos, e boa parte dessa epopeia aconteceu aqui em São Paulo.
O primeiro computador do Brasil: um andar inteiro
Em primeiro lugar, vale um marco de 1957. O primeiro computador a funcionar no Brasil foi o Univac 120, da americana Remington Rand — uma máquina que ocupava um andar inteiro da Prefeitura de São Paulo, onde processava os dados do serviço municipal de água e esgoto. E esse serviço, aliás, acabou sendo a origem da atual Prodam, a empresa de tecnologia da prefeitura. Na mesma época, a tradicional fábrica de brinquedos Estrela se tornou pioneira no uso empresarial da informática, em 1958.
| Marco | Ano | Detalhe |
| Univac 120 na Prefeitura de SP | 1957 | 1º computador no Brasil; origem da Prodam |
| Computador na fábrica Estrela | 1958 | Pioneirismo na indústria privada |
| Zezinho (ITA) | 1961 | 1º computador 100% projetado no país |
| Projeto Guaranys (BNDE) | 1968 | Corrida tecnológica entre Unicamp e USP |
| Patinho Feio (USP) | 1972 | 1º computador nacional a entrar em operação |
| Cobra (Computadores Brasileiros) | 1974 | 1ª empresa de PCs 100% brasileiros; Pelé fez propaganda |
A corrida: Cisne Branco x Patinho Feio
Entretanto, o grande salto aconteceu na década de 1960. Em 1961, alunos do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica, em São José dos Campos) construíram o Zezinho, considerado o primeiro computador totalmente projetado e construído no país — que teve vida curta, pois foi “canibalizado” pelos alunos dos anos seguintes para novas experiências.
Na sequência, veio o incentivo militar. O capitão José Luiz Guaranys Rego, da Marinha, defendia que o Brasil não poderia depender de tecnologia estrangeira — durante a Guerra Fria, fragatas recém-compradas poderiam virar “um monte de latas boiando” sem eletrônica nacional. Assim, em 1968, o BNDE lançou o Projeto Guaranys, que deflagrou uma verdadeira corrida entre estudantes da Unicamp e da USP.
Os primeiros lançaram o projeto Cisne Branco — nome inspirado no hino da Marinha. Os uspianos responderam com ironia, batizando o próprio projeto de Pato Feio, rapidamente apelidado de Patinho Feio. E levaram a melhor: o Cisne nunca funcionou, mas o Patinho Feio entrou em operação em 1972, pesava 100 quilos e foi o resultado de dois anos de pesquisa e desenvolvimento.
O dia em que um fotógrafo desligou o computador
Ademais, a inauguração do Patinho Feio, em 24 de julho de 1972, tem uma anedota digna de cinema. Estavam presentes o governador paulista Laudo Natel e o reitor Miguel Reale — e um bispo foi convidado a benzer a máquina. O detalhe? Não houve demonstração do computador funcionando: um fotógrafo afoito pisou no fio e desligou o equipamento, que demorou para ser reiniciado. A história foi relatada pelo jornalista Domingos Zaparolli, da revista Pesquisa Fapesp.
Do Patinho à Cobra: o PC com a cara de Pelé
Dessa forma, o governo decidiu adquirir a tecnologia da USP e, em julho de 1974, fundou a Cobra — acrônimo de Computadores Brasileiros —, uma joint venture entre o Estado, a Equipamentos Eletrônicos e a inglesa Ferranti. A empresa nasceu de demanda estratégica da Marinha, com o objetivo de nacionalizar os sistemas eletrônicos das embarcações e reduzir a dependência tecnológica do país.
O primeiro produto comercial nasceu do convênio com a PUC-Rio e batizou-se G-10 — a letra em homenagem ao sobrenome do capitão Guaranys. E a Cobra chegou a ter Pelé como garoto-propaganda: em um anúncio histórico, o Rei aparece sorrindo ao lado do computador com a chamada “A nova paixão do Pelé começa com X”.
O legado que vivemos hoje
Por fim, o Patinho Feio e a Cobra plantaram a semente da indústria nacional de tecnologia. Mais de cinco décadas depois, o Brasil discute soberania digital, inteligência artificial e a independência tecnológica — os mesmos temas que mobilizavam o capitão Guaranys nos anos 1960. Felizmente, embora o Dia da Informática seja celebrado hoje, a história completa merece ser contada — e recontada — em todas as escolas de São Paulo.
Fontes:
[1] BBC News Brasil: Patinho Feio, Cobra e clone do Mac: a pré-história da informática no Brasil
