São Paulo viveu neste sábado (15) um dos capítulos mais inusitados da corrida presidencial. Além disso, a jogada coloca frente a frente o empresário influenciador e a Justiça Eleitoral.
A cena que poucos esperavam aconteceu neste sábado (15 de agosto). Em primeiro lugar, o Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB) protocolou o registro da candidatura de Pablo Marçal à Presidência da República. Consequentemente, o país assistiu a um movimento que desafia as próprias regras do jogo eleitoral. Isso porque Marçal permanece declarado inelegível até 2032 pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP). No entanto, apesar da condenação, o empresário e influenciador digital agora figura oficialmente no sistema DivulgaCand, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Em outras palavras, a disputa presidencial de 2026 ganhou um novo protagonista — mesmo que esse protagonista ainda precise superar uma série de obstáculos jurídicos.
A jogada nos bastidores que mudou o tabuleiro
O desfecho, contudo, não foi obra do acaso. De acordo com o próprio PRTB, o presidente nacional da legenda, Leonardo Avalanche, foi quem arquitetou o plano durante semanas. Inicialmente, Avalanche havia sido escolhido em convenção nacional, no fim de julho, para encabeçar a chapa presidencial do partido. Agora, porém, ele assume o papel de candidato a vice na chapa batizada de “Brasil Próspero”.
“Recuperamos o partido quando tentaram tirá-lo de nós”, afirmou Avalanche, em nota enviada ao g1 SP.
Ademais, a manobra só se tornou possível graças a uma liminar judicial que autorizou Marçal a deixar o União Brasil e retornar ao PRTB, seu antigo partido. Segundo a assessoria do empresário, a ficha de filiação foi preenchida e assinada em 4 de abril de 2026, com o deferimento da presidência nacional da agremiação. Dessa forma, a filiação passou a atender, provisoriamente, às exigências da legislação eleitoral.
Mas por que ele segue inelegível?
É fundamental compreender o contexto da condenação. No dia 5 de agosto, o TRE-SP rejeitou, por unanimidade, os embargos de declaração apresentados pela defesa de Marçal e manteve a condenação que o tornou inelegível por oito anos. A razão? O uso indevido dos meios de comunicação durante a campanha eleitoral de 2024, na chamada estratégia do “campeonato de cortes”.
Nesse esquema, colaboradores eram incentivados a produzir e disseminar vídeos de campanha nas redes sociais mediante remuneração e brindes. Além disso, a Corte aplicou uma multa de R$ 420 mil ao então candidato à Prefeitura de São Paulo. As ações haviam sido movidas pelo PSB, pelo Ministério Público Eleitoral e pela vereadora eleita Silvia Ferraro (PSOL/Rede).
| Elemento | Situação atual |
| Registro da candidatura | Protocolado no TSE em 15/08 |
| Inelegibilidade | Mantida até 2032 pelo TRE-SP |
| Condenação | Uso indevido dos meios de comunicação (campeonato de cortes) |
| Multa aplicada | R$ 420 mil |
| Chapa presidencial | “Brasil Próspero” (Marçal e Leonardo Avalanche) |
| Propaganda eleitoral | Permitida na internet a partir de 16/08 |
Enquanto o TSE não decidir, ele é candidato
Em seguida, surge a pergunta inevitável: como um inelegível pode concorrer? A resposta está no próprio funcionamento da Justiça Eleitoral. Segundo Fernando Neisser, professor de Direito Eleitoral da FGV, qualquer pessoa pode apresentar um pedido de registro, pois o sistema não faz filtro prévio.
“Ele não tem como ter o registro dele deferido hoje. Ele vai pedir o registro. Adversários, o Ministério Público Eleitoral vão entrar com a impugnação. Ele vai apresentar defesa dele. Enquanto tudo isso acontece, ele é candidato, ele pode fazer campanha, pode arrecadar, pode gastar recursos, tem que constar em pesquisa”, explicou Neisser ao g1.
Na prática, isso significa que Marçal poderá disputar a atenção dos eleitores, arrecadar recursos e aparecer nas pesquisas — ao menos até que o TSE profira uma decisão contrária. Caso isso ocorra, a candidatura será interrompida e o PRTB poderá substituí-lo.
Patrimônios declarados: R$ 7,4 bilhões para o candidato
Vale destacar ainda um dado que já virou assunto nas redes sociais. Na declaração de bens dos presidenciáveis divulgada neste sábado, Marçal declarou patrimônio de R7,4bilho~es∗∗—omaiorentretodososcandidatos.Porsuavez,seuvice,Avalanche,declarou∗∗R 495 milhões. Em contraste, o menor patrimônio registrado foi de apenas R$ 33 mil.
O que vem agora?
Diante disso, o cenário tende a esquentar. A partir de domingo (16), a chapa “Brasil Próspero” já pode fazer propaganda eleitoral, inclusive na internet. Além disso, adversários e o Ministério Público Eleitoral deverão apresentar impugnações, enquanto Marçal terá prazo para defender seu registro — que, por ser uma eleição presidencial, será analisado diretamente pelo TSE.
Por fim, quando questionado pelo g1 sobre a candidatura, Marçal limitou-se a dizer: “O Senhor proverá”. Até lá, a estratégia do PRTB é clara: dominar as conversas do início da campanha e transformar o registro polêmico em exposição nacional. Resta saber se a aposta se converterá em votos — ou em mais um capítulo jurídico.
Fontes:
[1] g1 SP: Mesmo inelegível até 2032, PRTB lança Pablo Marçal como candidato à Presidência
[2] UOL: PRTB anuncia Pablo Marçal, que está inelegível, como candidato à Presidência
[3] g1: Marçal declara patrimônio de R$ 7,4 bi; vice diz ter R$ 495 milhões
