Há encontros que alargam o mundo. Outros fazem a vida caber dentro das próprias frustrações.
Nem toda presença merece intimidade. Há pessoas que chegam acompanhadas de uma espécie de balança: medem o sucesso alheio, desconfiam da alegria dos outros, encontram uma justificativa para cada derrota e transformam quase toda conquista em motivo de comparação. Conviver muito tempo com esse tipo de situação pode alterar a nossa própria maneira de observar a vida. O que antes parecia possível começa parecer ingenuidade; o entusiasmo passa a pedir explicações.
Ninguém constrói a própria trajetória apenas a partir das companhias que escolhe. Ainda assim, as relações participam do que nos tornamos. Ideias circulam entre pessoas. Hábitos se contaminam. Critérios mudam de lugar. Uma conversa pode abrir uma janela ou estreitar um horizonte.
Talvez por isso seja mais revelador observar o efeito de uma presença do que aquilo que ela declara ser.
Há quem nos faça pensar com mais precisão. Existe quem apresente uma perspectiva que não havíamos considerado. Vai ter discórdia sem transformar a diferença em disputa, corrija sem diminuir, aconselhe sem ocupar o lugar do outro. Pessoas assim não precisam vencer todas as conversas para serem percebidas. Sua inteligência não depende de apagar a inteligência alheia.
Também existem aqueles que atravessaram períodos difíceis sem transformar a própria dor em licença para ferir. Conhecem a decepção, mas não fizeram dela uma identidade. Conseguem reconhecer o mérito de alguém sem sentir que isso lhes rouba alguma coisa. Admiram sem se diminuir. Celebram sem precisar aparecer.
Isso não significa procurar relações feitas apenas de concordância. Às vezes, uma das melhores companhias é justamente aquela que nos contraria. Quem aponta uma incoerência pode prestar um serviço maior do que quem oferece elogios. Quem recusa um aplauso fácil pode nos devolver uma medida mais justa de nós mesmos.
A diferença está naquilo que sustenta o encontro. Há confronto que humilha e há confronto que amplia. Há conselho que aprisiona e há conselho que devolve liberdade. Há proximidade que exige personagens e há proximidade em que podemos simplesmente existir.
Talvez algumas relações durem porque permitem crescimento sem cobrança de performance. Outras se desgastam porque, ao lado delas, precisamos o tempo inteiro administrar impressões, escolher palavras, justificar alegrias ou diminuir conquistas para não incomodar.
Com o tempo, prosperidade ganha outro significado. Não está apenas naquilo que acumulamos, nos lugares a que chegamos ou no reconhecimento que recebemos. Está também na qualidade das conversas que nos acompanham, na inteligência das trocas, na generosidade que encontramos pelo caminho e naquilo que essas relações despertam em nós.
Vale reparar nisso.
Quem nos torna mais lúcidos? Quem desperta coragem? Quem nos faz pensar melhor? E, talvez mais difícil, ao lado de quem nos tornamos uma versão de nós mesmos que respeitamos?
As respostas não precisam ser pronunciadas.
Algumas verdades ganham força justamente quando cada um descobre, sozinho, o nome das pessoas que cabem nelas.
Texto e imagem: Kica de Castro
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