Viver Eficiente: Uma ferida não pode ocupar uma vida inteira

Há acontecimentos que ninguém escolhe: passar por alguma situação de violência, sofrer um acidente, uma doença, nascer com uma deficiência ou adquiri-la ao longo da vida. De uma hora para outra, a vida pode perder a forma conhecida. Mudam a rotina, o trabalho, os planos e a relação com a própria imagem. Pode mudar, inclusive, a maneira como os outros passam a perceber aquela pessoa.

Isso não diminui ninguém. E sofrimento não é mérito. Existem feridas que permanecem injustas, difíceis de nomear e impossíveis de transformar em frases bonitas. Dizer que tudo acontece por alguma razão pode ser apenas uma forma confortável de fugir daquilo que não tem explicação.
A vida, entretanto, continua. Nem sempre no ritmo desejado ou com a mesma confiança, mas segue em frente.


Quem atravessou uma experiência devastadora não precisa ser tratado como alguém frágil demais para decidir por si. Precisa de espaço. Faz falta uma amizade capaz de acolher sem infantilizar, colegas que não confundam cuidado com piedade e gestores que saibam oferecer condições de trabalho sem transformar o profissional em um problema a ser administrado.


No mercado de trabalho, essa diferença se revela quando a gestão confunde a condição de uma pessoa com a medida de sua capacidade.
Uma empresa pode perceber primeiro aquilo que foge do padrão social e só depois reconhecer a competência que não depende de nenhum padrão para existir. A experiência e a capacidade de resolver problemas, liberdade para criar, liderança e decisões estratégicas. Quando isso acontece, não é apenas o profissional que perde. A própria organização descarta competência porque não soube ajustar o ambiente em que ela poderia aparecer.


Nem toda limitação é corporal. Algumas estão nas portas estreitas, nos sistemas inacessíveis, nos horários inflexíveis, nos salários inferiores e nos processos desenhados para um único tipo de corpo.


Ninguém deveria precisar voltar a ser quem era, ou corresponder ao que esperavam que fosse, para merecer uma vida inteira. Uns precisam reaprender movimentos; outros, reorganizar a vida profissional. Há quem simplesmente precise de tempo. No meio desse desarranjo, muitos descobrem que ainda podem ocupar lugares que o mundo já havia decidido que não eram para eles.

Texto e ilustração: Kica de Castro

Este conteúdo faz parte da coluna Viver Eficiente e não pode ser reproduzido, de forma parcial ou total, sem a autorização prévia da autora ou do Portal Divulga SP.

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