Operação Frank Mobile mobiliza mais de 1.700 agentes contra esquema de roubo e revenda de celulares em SP

Ação do Ministério Público e das polícias Civil e Militar investiga cadeia que envolve furtos, roubos, desbloqueio de aparelhos, fraudes bancárias, adulteração de celulares e revenda

Uma operação de grande porte mobilizou mais de 1.700 agentes nesta quinta-feira (10) para combater uma organização criminosa especializada no roubo, furto, receptação, adulteração e revenda de celulares. Batizada de Operação Frank Mobile, a ação é realizada em São Paulo e Goiás pelo Ministério Público de São Paulo e pelas polícias Civil e Militar.

Ao todo, a Justiça autorizou sete mandados de prisão temporária e 84 mandados de busca e apreensão. Também foi determinado o bloqueio de mais de R$ 5 milhões em bens relacionados ao esquema investigado.

Entretanto, a operação não mira apenas os responsáveis pelos roubos e furtos. A investigação aponta para uma cadeia organizada que começa nas ruas e pode terminar com os aparelhos novamente disponíveis para venda, muitas vezes com componentes e identificadores adulterados.

Como funcionava o esquema de celulares roubados

Segundo a investigação, a estrutura criminosa funcionava por etapas. Primeiro, os celulares eram furtados ou roubados. Em seguida, os aparelhos eram rapidamente encaminhados para receptadores e outros integrantes do grupo.

A partir daí, começava uma segunda fase, considerada especialmente lucrativa pelos investigadores: a tentativa de acessar os dados armazenados nos aparelhos.

Em alguns casos, os criminosos tentavam desbloquear os celulares, redefinir senhas e acessar contas vinculadas aos dispositivos. Dessa forma, o prejuízo para a vítima poderia ir muito além do valor do telefone.

A investigação aponta que os criminosos tentavam acessar aplicativos bancários e outros serviços financeiros, inclusive para realizar transferências via Pix e contratar empréstimos.

Quem são os chamados “icloudeiros”

Um dos termos que aparece na investigação é “icloudeiros”, usado para identificar criminosos especializados em tentar desbloquear aparelhos e contornar mecanismos de segurança.

Esses operadores receberiam os celulares depois dos furtos ou roubos e tentariam eliminar os bloqueios existentes nos dispositivos.

Além disso, nos casos em que a vítima é obrigada a informar a senha durante um assalto, o acesso ao aparelho pode facilitar a tentativa de invasão de contas bancárias e outros serviços.

Por isso, segundo a investigação, o celular roubado não representa apenas um bem material para os criminosos. O aparelho também pode funcionar como uma porta de entrada para informações pessoais e financeiras.

Rua Guaianases aparece como ponto importante da investigação

No Centro de São Paulo, a Rua Guaianases aparece como um dos principais pontos de concentração dos aparelhos investigados.

De acordo com a apuração, celulares furtados em diferentes locais da cidade acabavam sendo rastreados até a região. O cruzamento dessas informações ajudou os investigadores a identificar possíveis pontos de armazenamento, distribuição e processamento dos aparelhos.

A investigação também encontrou mais de 500 ocorrências envolvendo celulares na região em pouco mais de dois anos.

Além disso, rastreamentos realizados pelas próprias vítimas apontaram repetidamente para endereços próximos à Rua Guaianases, reforçando a suspeita de que a área funcionava como um ponto importante da cadeia de receptação.

Grandes eventos também aparecem na investigação

Outro ponto destacado pela investigação envolve os furtos praticados durante shows, festivais e grandes aglomerações.

Entre os eventos citados estão Lollapalooza, Parada do Orgulho LGBT+, Virada Cultural, The Town, Tomorrowland e Só Track Boa.

Nessas situações, os investigadores identificaram uma divisão de tarefas entre criminosos.

Os chamados “batedores” seriam responsáveis por identificar as vítimas e retirar os celulares. Depois, os “recolhedores” receberiam os aparelhos rapidamente, facilitando a saída dos dispositivos do local e dificultando a identificação dos autores.

Assim, o celular poderia deixar o ambiente do evento poucos minutos depois do furto.

Região da 25 de Março também é citada

A investigação identificou ainda outro fluxo de aparelhos na região da 25 de Março, especialmente em áreas próximas ao Shopping Mundo Oriental e à Galeria Pagé.

Nesse caso, aparecem principalmente celulares relacionados a roubos com grave ameaça e furtos mediante quebra de vidros de veículos.

Dessa maneira, os investigadores identificaram diferentes caminhos para os aparelhos, dependendo da forma como haviam sido obtidos.

Celulares eram adulterados antes da revenda

Depois de passar pelas mãos dos receptadores e, em alguns casos, pelos chamados “icloudeiros”, os celulares poderiam chegar a oficinas e laboratórios clandestinos.

Segundo a investigação, esses locais utilizavam softwares e realizavam alterações físicas nos aparelhos.

Entre as modificações estavam a substituição de placas-mãe, carcaças e telas, além de alterações em identificadores como o IMEI, número utilizado para identificar o aparelho nas redes de telefonia.

O objetivo seria dificultar o rastreamento e esconder a origem criminosa do celular.

Posteriormente, os aparelhos poderiam voltar ao mercado de diferentes maneiras. Alguns seriam vendidos inteiros, enquanto outros seriam desmontados para comercialização de peças.

Empresas davam aparência legal aos aparelhos

A investigação aponta ainda que a cadeia não terminava nas oficinas.

Segundo os investigadores, empresas aparentemente regulares também poderiam participar do processo, emitindo notas fiscais e documentos simulados para conferir aparência de legalidade aos celulares de origem ilícita.

Com isso, um aparelho roubado poderia passar por diferentes etapas até retornar ao mercado como se tivesse origem regular.

Essa característica é uma das razões pelas quais o Ministério Público trata o caso como uma estrutura criminosa complexa, e não apenas como uma sequência de roubos praticados individualmente.

Investigação reuniu dados de diferentes operações

A Operação Frank Mobile é resultado de investigações realizadas ao longo dos últimos anos.

Para chegar à estrutura investigada, os órgãos de segurança cruzaram informações obtidas em apreensões, rastreamento de celulares, relatórios de inteligência, dados fiscais e movimentações financeiras.

Uma das investigações anteriores citadas no caso é a Operação Salus et Dignitas. Dados encontrados em aparelhos e equipamentos apreendidos ajudaram os investigadores a identificar possíveis conexões entre ladrões, receptadores, técnicos e comerciantes.

Com o cruzamento das informações, foi possível observar que aparelhos roubados ou furtados em diferentes regiões acabavam concentrados em determinados pontos do Centro de São Paulo.

Operação tenta atingir toda a cadeia

Ao mobilizar mais de 1.700 agentes, a operação busca atingir diferentes níveis da estrutura investigada.

Isso inclui os responsáveis pela subtração dos celulares, receptadores, pessoas envolvidas no desbloqueio dos aparelhos, responsáveis por adulterações e integrantes ligados à comercialização.

Até o momento da publicação, as autoridades haviam confirmado prisões e o cumprimento dos mandados previstos na operação. As investigações continuam para identificar outros envolvidos e esclarecer o alcance nacional da organização.

O que a Operação Frank Mobile revela

Mais do que combater o roubo de celulares, a operação expõe uma cadeia que transforma um crime praticado na rua em uma atividade organizada de receptação, fraude e comércio ilegal.

Por isso, o caso chama atenção também para os riscos enfrentados pelas vítimas depois que um celular é roubado.

Além da perda do aparelho, o acesso a dados pessoais, aplicativos bancários e contas digitais pode ampliar significativamente o prejuízo.

Enquanto a investigação avança, a Operação Frank Mobile tenta interromper justamente essa cadeia — desde o momento em que o celular é retirado da vítima até sua possível reinserção no mercado.

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