O espetáculo “Lucha – recordar o que há em nós” chega a São Paulo com uma narrativa que atravessa memória, identidade, ancestralidade e relações familiares. Primeiro solo autoral da atriz-criadora Marília Amorim, a montagem reúne teatro, relatos autobiográficos e elementos da cultura andina para reconstruir uma história familiar marcada por migração, silêncios e descobertas.
A temporada acontece de 10 de outubro a 1º de novembro de 2026, aos sábados, às 20h, e aos domingos, às 18h, no Espaço Cultural A Próxima Cia., em Campos Elíseos, na região central de São Paulo.
O título da peça é inspirado no nome artístico da avó da atriz, Dona Lucha, que trabalhou como atriz de teatro e radionovela no Peru durante os anos 1960. A partir dessa referência, Marília Amorim desenvolveu uma pesquisa de três anos sobre a própria história e identidade, reunindo documentos, objetos, cartas, diários, fotografias, entrevistas, relatos orais e memórias pessoais.
Espetáculo aborda memória, identidade e ancestralidade
Em “Lucha – recordar o que há em nós”, a trajetória pessoal da atriz se transforma em material para uma criação cênica que ultrapassa o relato biográfico. A montagem investiga como as histórias familiares influenciam quem somos e questiona quais memórias permanecem, quais são interrompidas e o que escolhemos transmitir para as próximas gerações.
A narrativa parte da relação de Marília com a família paterna. Seu pai, Miguel, era peruano e chegou ao Brasil na década de 1970, após participar do movimento universitário contrário à ameaça da ditadura em Lima. A mudança para São Paulo representou um novo começo, mas também esteve acompanhada pelo rompimento com parte da família e pelo distanciamento de sua história anterior.
Durante a vida adulta, Marília teve contato com parte dessa família e passou a reconstruir uma trajetória que, até então, conhecia apenas por fragmentos. O processo ganhou novos caminhos após a morte de seu pai, em 2011, quando recebeu da tia mais nova, que vive na França, objetos e relatos relacionados à família.
Entre essas heranças estava o violão de sua avó Lucha e o diário de bordo produzido por sua tia Martha durante uma viagem realizada em um veleiro entre a França e a América do Sul.
Uma história familiar transformada em criação teatral
A trajetória da tia Martha se tornou um dos elementos que atravessam a pesquisa de Marília. No final dos anos 1980, ela e o marido francês cruzaram o Oceano Atlântico em um pequeno veleiro, em uma época anterior à popularização do GPS.
A viagem percorreu a costa brasileira e seguiu posteriormente por terra pelo continente americano até chegar ao Peru. A travessia foi realizada novamente nos anos seguintes e registrada em diários de bordo e documentos técnicos de navegação.
Em 2023, ao visitar novamente a tia, Marília teve acesso a parte desse material. O encontro com esses registros contribuiu para ampliar a pesquisa sobre sua família e para transformar essas memórias em matéria para o espetáculo.
Assim, “Lucha” combina acontecimentos reais, ficção e elementos poéticos para discutir questões que ultrapassam a história da própria atriz. A montagem propõe uma reflexão sobre ancestralidade, pertencimento e o papel da memória na construção da identidade.
A figura da “chasqui” e o universo andino
Na dramaturgia, Marília surge como uma chasqui, figura associada aos mensageiros do Império Inca. A personagem também é apresentada como herdeira de um grande quipu, sistema utilizado pelos povos andinos para registrar informações por meio de cordões e nós.
A imagem funciona como metáfora para a própria investigação da atriz. Ao longo da peça, ela tenta interpretar os fragmentos de sua história familiar e compreender aquilo que recebeu como herança, mesmo quando esses elementos permaneceram ocultos durante parte de sua vida.
A narrativa passa, então, por questões como medo, silêncio, ausência, migração e ruptura familiar. Ao mesmo tempo, busca compreender como essas experiências continuam presentes nas gerações seguintes.
Primeiro solo de Marília Amorim
“Lucha – recordar o que há em nós” é o primeiro espetáculo solo da atriz Marília Amorim, que possui mais de 25 anos de trajetória em processos artísticos desenvolvidos principalmente no teatro de grupo.
A montagem foi construída de forma independente junto ao IMPULSO Coletivo, grupo fundado pela atriz em 2007. A direção é de Jorge Peloso, enquanto a própria Marília assina a concepção, dramaturgia e atuação.
A equipe reúne ainda profissionais responsáveis pela cenografia, figurino, trilha sonora, preparação musical, preparação corporal, iluminação, identidade visual e produção.
A proposta mantém a pesquisa da artista ligada ao trabalho do ator-criador e às possibilidades do teatro como espaço de investigação da memória e da experiência humana.
Sobre Marília Amorim
Marília Amorim é atriz, professora e arte-educadora, formada em Artes Cênicas pelo SENAC-SP e licenciada em Educação Artística – Artes Cênicas pela UNESP. É mestre em Artes Cênicas pela UNESP, onde pesquisou o treinamento como processo de investigação do ator-criador.
Ao longo de sua trajetória, realizou cursos com profissionais como Steven Wasson, Corinne Soum, Desmond Jones, Carlos Simioni, Ana Cristina Colla, Luis Louis, Eduardo Okamoto, Vera Sala e Samir Yasbek.
A atriz integrou a Cia. Artística Pombas Urbanas durante quatro anos e participou de temporadas em espaços como TBC, FUNARTE, SESCs e SEBRAE-SP, além de festivais internacionais.
Em 2007, fundou o IMPULSO Coletivo, com o qual atua como atriz e produtora. Desde 2013, o grupo integra a rede internacional de teatro de grupos KNOTS.NUDOS.NÓS, com participações em encontros realizados na Argentina, Bolívia e Brasil.
Serviço
Lucha – recordar o que há em nós
Temporada: 10 de outubro a 1º de novembro de 2026
Sessões: sábados, às 20h; domingos, às 18h
Local: Espaço Cultural A Próxima Cia.
Endereço: Rua Barão de Campinas, 529 – Campos Elíseos – São Paulo/SP
Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
Vendas: Sympla e bilheteria, uma hora antes das apresentações
Duração: 75 minutos
Classificação: Livre
Lotação: 40 lugares
Cafeteria: Sim
Acessibilidade: Não
Ficha técnica
Concepção, dramaturgia e atuação: Marília Amorim
Direção: Jorge Peloso
Cenografia: Marcela Pupatto
Figurino: Gabrielli Lecoña
Documentarista e arte: Alícia Peres
Trilha sonora: Ale Vianna
Preparação musical – charango: Gregorio Lazo
Preparação corporal – danças andinas: Quillay Mendez
Iluminação: Camila Andrade
Design gráfico: Guilherme Antunes
Assessoria de imprensa: Flavia Fusco Comunicação
Produção executiva: Marília Amorim e equipe
Realização: IMPULSO Coletivo
