Um exercício simples para lembrar que nossa história é maior do que aquilo que a imagem devolve.
O pote ficava na última prateleira do armário do banheiro, escondido atrás do antisséptico bucal e de uma caixa de remédios vencidos. Era um vidro comum, desses que sobrevivem à cozinha depois que a geleia de morango termina. Dentro, porém, não havia creme. Havia papéis.
Tudo começou numa manhã diante do espelho. Ainda sem café, ela recebeu do celular a primeira imperfeição do dia. Depois outra: uma marca sob os olhos, uma linha perto da boca, a pele menos firme. A rede social não dá tempo para respirar.
Cansada de procurar no próprio rosto aquilo que precisava ser corrigido, teve uma ideia: sempre que encontrasse algo bonito em si, escreveria num papel e guardaria no vidro.
O primeiro bilhete dizia: “As bochechas vermelhas depois da caminhada no frio.”
Vieram outros: os cabelos bagunçados de uma manhã, os olhos depois de uma gargalhada, as sardas no nariz, uma pinta que nunca apreciara muito. Até o rosto cansado depois de vencer um dia difícil.
Um dos bilhetes dizia: “Depois do acidente, enquanto esperava a ambulância, ouvi um pássaro. Antes das sirenes e do medo, aquele canto me lembrou que eu ainda estava viva.”
Sem perceber, ela estava colecionando coisas que o espelho não consegue mostrar. Porque o espelho devolve uma imagem, mas não conta a história. Não mostra a coragem de levantar num dia ruim, o abraço que acabou de acontecer, a cicatriz que guarda uma lembrança, nem a ruga que nasceu depois de anos sorrindo.
O pote guardava tudo isso.
Até que, certa manhã, ela abriu um bilhete: “O brilho nos olhos ao perceber que a cicatriz no joelho é lembrança de uma infância feliz.”
Então olhou novamente para o espelho. Estava cansada, sem maquiagem, com olheiras e uma nova linha na testa. Dessa vez, não procurou o que precisava consertar. Procurou o que já estava ali. A beleza não tinha desaparecido. Apenas nunca coubera inteira no espelho.
E aquele velho pote de geleia tinha se tornado precioso porque não prometia juventude, perfeição ou um rosto sem marcas. Fazia algo mais importante: lembrava que somos muito maiores do que a nossa aparência e que toda vida deixa marcas que merecem ser lembradas com carinho.
Coluna Viver Eficiente
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