Mais da metade das propostas dos candidatos à Presidência para a saúde já existe no SUS, aponta estudo

Levantamento do IEPS analisou 95 propostas dos seis principais candidatos; 56% já correspondem total ou parcialmente a políticas em vigor e 95% exigem recursos adicionais

Mais da metade das propostas para a saúde apresentadas pelos principais candidatos à Presidência nas Eleições 2026 já existe, total ou parcialmente, no Sistema Único de Saúde (SUS). O dado faz parte de um levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), realizado em parceria com a Umane.

O estudo analisou 95 propostas de saúde presentes nos planos de governo de seis candidatos que tinham pelo menos 2% das intenções de voto em uma pesquisa Datafolha realizada entre 8 e 10 de setembro. Foram analisados os programas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante).

56% das propostas já estão em vigor

Segundo o levantamento, 53 das 95 propostas analisadas, ou 56%, correspondem total ou parcialmente a políticas, programas ou normas que já estão em vigor no SUS.

Um dos exemplos citados pelo estudo é a reorganização das filas de atendimento. Cinco dos seis candidatos defendem que o acesso aos serviços considere fatores como gravidade e risco clínico, em vez de seguir somente a ordem de chegada.

No entanto, o próprio SUS já possui uma política com esse princípio. A Política Nacional de Regulação em Saúde, aprovada em dezembro de 2025, determina que o acesso considere risco e vulnerabilidade.

Outro tema presente nos seis planos é a digitalização da saúde. Todos apresentam propostas relacionadas ao prontuário eletrônico nacional e à ampliação da telemedicina.

O estudo destaca, porém, que o problema não está necessariamente em apresentar uma política que já existe. A questão é explicar o que mudaria na prática, como mais recursos, maior integração ou correção de falhas de implementação.

Plano de Lula concentra propostas já existentes

Entre os programas analisados, o levantamento aponta uma concentração ainda maior de políticas já implementadas no plano de Lula.

De acordo com o IEPS, 19 das 21 propostas de saúde apresentadas pelo candidato correspondem total ou parcialmente a políticas ou programas que já estão em vigor.

Entre os exemplos aparecem o PADI Brasil, a Política Nacional de Regulação em Saúde e o programa Agora Tem Especialistas.

A análise, portanto, considera tanto propostas novas quanto medidas que ampliam ou retomam ações que já fazem parte da política pública federal.

95% das propostas exigem mais recursos

O levantamento também avaliou outro ponto: o financiamento.

Segundo o IEPS, 95% das 95 propostas analisadas exigem recursos orçamentários adicionais para serem colocadas em prática.

O dado aparece em um cenário de pressão crescente sobre o orçamento da saúde.

Uma projeção da Instituição Fiscal Independente (IFI) citada pela Folha aponta que a necessidade de financiamento da saúde pela União deve crescer, em média, 3,9% ao ano acima da inflação na próxima década.

Ao mesmo tempo, o atual Regime Fiscal Sustentável permite crescimento de até 2,5% ao ano para o conjunto das despesas.

Com essa diferença, a estimativa indica que a necessidade projetada poderá superar em R$ 29,7 bilhões o mínimo constitucional obrigatório para a saúde em 2030.

Maioria depende de estados e municípios

O financiamento não é o único desafio apontado pelo estudo.

Das 95 propostas avaliadas, 79, ou 83%, dependem de algum grau de articulação entre União, estados e municípios. Isso ocorre porque o SUS possui uma estrutura descentralizada.

O governo federal pode criar políticas e estabelecer regras nacionais. Porém, estados e municípios executam grande parte dos serviços.

Por isso, determinadas propostas exigem acordos entre diferentes níveis de governo, compartilhamento de informações e mudanças na organização dos serviços.

O IEPS classificou 40 propostas como de alta articulação federativa e outras 39 como de articulação média.

Envelhecimento aumenta a pressão sobre o sistema

O estudo também relaciona a situação do SUS ao envelhecimento da população.

Segundo projeções do IBGE, a parcela de brasileiros com 65 anos ou mais passou de 6% em 2000 para 12% em 2026. A previsão é que essa proporção chegue a 23% em 2050.

Esse processo tende a aumentar a procura por consultas, exames, medicamentos e internações.

Além disso, o envelhecimento amplia a demanda por cuidados relacionados a doenças crônicas. Assim, o financiamento e a capacidade de atendimento do SUS ganham ainda mais importância nos próximos anos.

Gasto público ainda fica abaixo da referência usada pelo estudo

O IEPS também analisou a evolução do gasto público em saúde.

A referência utilizada pelo instituto indica que o gasto público deveria alcançar 6% do PIB até 2030.

Entre 2018 e 2023, entretanto, a participação passou de 3,9% para 4,3% do PIB.

Dessa forma, o estudo aponta uma distância entre o patamar atual de gasto e o nível considerado necessário para sustentar a expansão das demandas do sistema.

Apostas e mudanças climáticas aparecem pouco

Além de avaliar o que está nos planos, o IEPS também identificou temas que, segundo o instituto, poderão pressionar o sistema de saúde nos próximos anos.

Entre eles estão apostas online, mudanças climáticas e os efeitos do ambiente digital sobre a saúde mental de crianças e adolescentes.

No caso das apostas, o instituto estima que 12,8 milhões de brasileiros apostaram online em 2025. O levantamento calcula que cerca de 1,4 milhão estavam em situação de jogo problemático e estima em R$ 30,6 bilhões por ano os custos associados aos danos à saúde relacionados às apostas.

O tema aparece nos planos principalmente relacionado a endividamento e orçamento familiar, e não como uma questão de saúde pública.

Rede do SUS também está exposta a eventos climáticos

As mudanças climáticas formam outro ponto destacado pelo estudo.

Segundo o IEPS, 29% dos estabelecimentos do SUS ficam a menos de 500 metros de áreas de alto ou muito alto risco geológico.

A proporção chega a 26% dos leitos e 20% dos leitos de UTI.

O instituto também aponta que dados meteorológicos podem ajudar a antecipar surtos de doenças, como dengue. Porém, ainda existe uma distância entre os sistemas de monitoramento climático e o planejamento da saúde.

Saúde mental infantil no ambiente digital fica fora dos planos

O terceiro ponto envolve a saúde mental de crianças e adolescentes.

O ECA Digital entrou em vigor em março de 2026. Mesmo assim, segundo o levantamento, nenhum dos seis planos analisados propõe a regulação das plataformas digitais como instrumento específico de proteção à saúde mental dessa população.

O estudo, portanto, identifica uma diferença entre problemas que podem ganhar importância para o SUS e os temas destacados nos programas eleitorais.

Estudo não avalia apenas a existência das propostas

A análise do IEPS não se limita a contar quantas propostas aparecem em cada plano.

O levantamento também observa se a medida já existe, quais recursos seriam necessários e quanto depende de coordenação entre os governos.

Para o instituto, essas informações ajudam a compreender os desafios de execução das propostas apresentadas durante a campanha.

Assim, o estudo coloca em destaque não apenas o que os candidatos prometem para a saúde, mas também o que já está em funcionamento e quais condições seriam necessárias para implementar mudanças.

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Fontes: Folha de S.Paulo | Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) | Umane.
Arte: editorial ilustrativa.

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