Peça da Cia. Triptal questiona a história oficial e dá espaço a vozes indígenas e femininas em São Paulo

A construção da identidade brasileira e as histórias deixadas à margem dos registros oficiais estão no centro de “Quase Uma Estória: Água Parada que Sumiu no Buraco”, nova montagem da Cia. Triptal. O espetáculo, que integra as comemorações pelos 35 anos da companhia, estreou em outubro no Teatro Alfredo Mesquita e segue em cartaz até 1º de novembro. Em novembro, a produção também terá apresentações no Teatro Maria Della Costa, na Bela Vista.

Livremente inspirada em “O Sumidouro”, do dramaturgo Jorge Andrade (1922–1984), a peça revisita temas ligados à colonização, à formação dos heróis nacionais e às relações de poder que influenciam a maneira como o passado é contado. A montagem propõe uma mudança de perspectiva ao colocar em evidência vozes indígenas e femininas, além de conhecimentos e memórias transmitidos pela oralidade.

A encenação é assinada por Fabrício Pietro e André Garolli. Pietro também integra o elenco, ao lado de Maiara Astarte e Victor Barros, em uma trama que questiona quem tem o direito de narrar a história do país e quais experiências acabam excluídas das versões consideradas oficiais.

Três personagens em conflito com a história

A dramaturgia se desenvolve a partir de três personagens que se relacionam de maneiras diferentes com a memória e a construção histórica.

Vicente, interpretado por Fabrício Pietro, é um dramaturgo que pretende investigar a trajetória dos bandeirantes e expor contradições associadas a Fernão Dias. Ao tentar questionar a narrativa tradicional, porém, ele passa a reproduzir mecanismos de poder semelhantes aos que deseja combater.

José Dias, vivido por Victor Barros, carrega o conflito entre suas origens indígenas e sua ligação com o universo dos bandeirantes. Sua trajetória coloca em cena questões de pertencimento, identidade e violência colonial.

Já Martha, personagem de Maiara Astarte, começa como funcionária da casa de Vicente e leitora silenciosa do manuscrito do dramaturgo. Aos poucos, ela assume uma posição crítica e reivindica o direito de contar a própria experiência, deixando de ocupar apenas o lugar que lhe foi atribuído.

O confronto entre os personagens desloca o centro da narrativa. Em vez de tratar a história como um relato único, o espetáculo abre espaço para diferentes perspectivas, atravessadas por experiências, corpos, afetos e desejos.

A obra de Jorge Andrade em diálogo com o presente

Para a Cia. Triptal, a dramaturgia de Jorge Andrade oferece caminhos para discutir questões que permanecem atuais. Em “O Sumidouro”, a construção dos heróis nacionais e a trajetória dos bandeirantes permitem investigar como determinadas versões do passado ganham legitimidade, enquanto outras são silenciadas.

A presença de José Dias amplia essa reflexão ao abordar conflitos culturais e raciais relacionados à formação da sociedade brasileira.

Segundo André Garolli, a obra de Andrade não apresenta respostas definitivas, mas abre espaço para questionamentos sobre as relações familiares, as transformações econômicas, os conflitos territoriais e os processos de apagamento que atravessam a história do país.

A montagem parte dessas questões para perguntar quem escolhe as histórias que serão lembradas e quais perspectivas ficam de fora. A proposta também busca construir uma cena em que artistas e participantes de diferentes origens possam contribuir com seus próprios saberes, memórias e experiências.

Pesquisa teatral desenvolvida desde 2022

“Quase Uma Estória: Água Parada que Sumiu no Buraco” faz parte de uma investigação da Cia. Triptal iniciada em 2022, durante as comemorações pelo centenário de nascimento de Jorge Andrade. O projeto “A Tragédia da Historiografia do Estado Brasileiro pela Ótica de Jorge Andrade” reuniu seminários, oficinas, leituras cênicas e a montagem de “Pedreira das Almas”.

Em 2025, a pesquisa ganhou novos desdobramentos com “Quem Sou Eu? Quem Somos Nós? – Reflexões sobre Identidade por Caminhos Inversos”, projeto contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo.

A investigação aproximou a obra do dramaturgo de diferentes áreas do conhecimento, como história do Brasil, mitologia, cosmologia, saberes indígenas, psicologia, psicanálise, arqueologia e estudos sociais.

Entre as atividades realizadas estão quatro seminários dedicados a temas como a construção dos heróis, a presença indígena na sociedade brasileira, as relações familiares e a continuidade das estruturas de poder no país. O projeto também promoveu cinco residências artístico-pedagógicas em regiões descentralizadas de São Paulo, envolvendo jovens, adolescentes, adultos, estudantes, professores e artistas.

Ao longo desse processo, a companhia experimentou linguagens como naturalismo, teatro épico e expressionismo, buscando explorar as dimensões políticas, sociais e subjetivas presentes na dramaturgia de Andrade.

Cia. Triptal completa 35 anos de trajetória

Com três décadas e meia de atuação no teatro paulistano, a Cia. Triptal desenvolve trabalhos que ocupam diferentes espaços culturais, especialmente equipamentos públicos, e investiga temas relacionados à experiência humana e às transformações sociais.

A trajetória inclui projetos dedicados à dramaturgia brasileira, como “Maria Clara Clareou”, realizado entre 1994 e 1999, além de montagens e pesquisas contempladas pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo.

A companhia também recebeu prêmios como APCA, Shell, APETESP e Mambembe, entre outros reconhecimentos.

Serviço

Quase Uma Estória: Água Parada que Sumiu no Buraco

Espetáculo livremente inspirado em “O Sumidouro”, de Jorge Andrade.

Teatro Alfredo Mesquita

  • Temporada: até 1º de novembro de 2026
  • De quinta a sábado, às 20h; domingos, às 19h
  • Ingressos gratuitos, com apresentações presenciais

Teatro Maria Della Costa

  • Endereço: Rua Paim, 72, Bela Vista, São Paulo
  • Dias 6, 7 e 8 de novembro: sexta e sábado, às 20h; domingo, às 18h
  • Dias 10, 11 e 12 de novembro: terça, às 20h; quarta, às 14h30 e às 20h; quinta, às 20h
  • O local conta com estacionamento e acessibilidade para pessoas com deficiência.

Antes da publicação, confirme a programação das sessões extras no Teatro Alfredo Mesquita e a quantidade total de apresentações no Teatro Maria Della Costa, pois as informações fornecidas apresentam divergências.

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