A história de um cangaceiro que passou de inimigo da polícia a figura de devoção popular inspira “JARARACA”, espetáculo do Grupo Pavilhão da Magnólia que retorna a São Paulo para uma temporada gratuita no Teatro da USP (TUSP Maria Antônia). As apresentações acontecem de 15 de outubro a 8 de novembro, com sessões de quinta-feira a sábado, às 20h, e aos domingos, às 19h.
A montagem parte da trajetória de José Leite de Santana, conhecido como Jararaca, integrante do bando de Lampião que foi capturado e morto pela polícia após a tentativa de invasão de Mossoró, no Rio Grande do Norte, em 1927. Décadas depois, ele passou a ser reverenciado como santo popular na cidade. Essa transformação é o ponto de partida para uma investigação teatral sobre memória, violência e as disputas em torno das versões que permanecem na história.
Do cangaço à memória coletiva
Com dramaturgia de Giordano Castro e direção de Murillo Ramos, o espetáculo revisita os últimos sete dias de vida de Jararaca sem se limitar à reconstrução de um episódio histórico. A encenação questiona como determinadas figuras são lembradas, enquanto outras experiências são apagadas, e quem tem autoridade para definir quais narrativas serão preservadas.
A trajetória do personagem também permite discutir os imaginários construídos sobre o Nordeste e o cangaço. Em vez de recorrer apenas a representações folclorizadas do sertão, a peça investiga as contradições de um período marcado por conflitos sociais, desigualdades e violência.
Para o ator Nelson Albuquerque, a montagem procura ampliar o olhar sobre esse contexto e relacioná-lo às estruturas que continuam presentes na sociedade brasileira.
Teatro aproxima episódios históricos de questões atuais
Ao trazer a morte de Jararaca para o palco, o Grupo Pavilhão da Magnólia estabelece uma reflexão sobre a violência de Estado e a maneira como diferentes mortes são tratadas pela sociedade. A pergunta “Quem mandou matar Jararaca? Quem mandou matar Marielle?” aproxima acontecimentos de épocas distintas para discutir quais vidas recebem reconhecimento, quais mortes provocam comoção e quais acabam naturalizadas ou esquecidas.
A montagem também aborda o papel do teatro na recuperação de histórias que não ocupam um lugar estável na memória coletiva. Ao confrontar versões e questionar os silêncios da narrativa oficial, a peça transforma o palco em espaço de investigação sobre o passado e suas relações com o presente.
Montagem já passou por São Paulo e Fortaleza
“JARARACA” estreou em maio de 2026, no Itaú Cultural, em São Paulo, e também foi apresentada em Fortaleza, no Festival Bora e no Teatro Carlos Câmara.
O trabalho reúne o Grupo Pavilhão da Magnólia, o Itaú Cultural e o Hub Cultural Porto Dragão, equipamento cultural do Governo do Ceará voltado à difusão, formação e articulação da produção artística do estado.
Em 2025, o grupo recebeu o Prêmio Shell de Teatro na categoria Destaque Nacional pelo espetáculo “A Força da Água”.
A temporada no TUSP foi selecionada pelo edital de ocupação do teatro para 2026. As apresentações são gratuitas, têm duração de 90 minutos e classificação indicativa de 16 anos.
Serviço
JARARACA — Grupo Pavilhão da Magnólia
- Data: 15 de outubro a 8 de novembro de 2026
- Horários: quinta-feira a sábado, às 20h; domingo, às 19h
- Local: Teatro da USP (TUSP Maria Antônia)
- Endereço: Rua Maria Antônia, 294, Vila Buarque, São Paulo
- Entrada: gratuita
- Classificação indicativa: 16 anos
- Duração: 90 minutos
- Capacidade: 100 lugares
