José Roberto Marques analisa possíveis fatores comportamentais por trás dos 33,4 milhões de brasileiros que não compareceram à votação
33,4 milhões de brasileiros não votaram no primeiro turno de 2026. Especialista em comportamento humano propõe reflexão apartidária sobre responsabilidade, presença e consciência política às vésperas do segundo turno.
No primeiro turno das eleições de 2026, 33,4 milhões de brasileiros não compareceram às urnas, o equivalente a 21,08% dos eleitores aptos a votar. Foi o maior índice de abstenção registrado em um primeiro turno de eleições gerais desde 1998. Para dimensionar esse número, basta uma comparação: o estado de São Paulo, maior colégio eleitoral do país, tem pouco mais de 34,1 milhões de eleitores. Na prática, o contingente de ausentes equivale a quase 98% de todo o eleitorado paulista.
Às vésperas do segundo turno, marcado para este domingo, 25 de outubro, o cientista, pesquisador e especialista em comportamento humano José Roberto Marques (@joserobertomarques) propõe uma reflexão apartidária sobre o significado dessa ausência. Para ele, a questão não deve ser reduzida a preferência política, desinteresse ou julgamento sobre quem não compareceu. O ponto central está em uma pergunta comportamental: o que acontece quando milhões de pessoas passam a acreditar que sua participação individual não faz diferença?
“Não votar também é uma decisão. E, em algum nível, é a decisão de deixar que outras pessoas determinem o resultado sem a presença da sua própria escolha. A eleição continuará acontecendo. A pergunta é se você estará presente nela”, afirma Marques.
O cientista também chama atenção para o fato de que quem não votou no primeiro turno pode participar normalmente do segundo turno, desde que esteja em situação eleitoral regular. Para ele, esse ponto reforça a oportunidade de transformar a reta final da eleição em um chamado cívico de caráter apartidário.
“Patriotismo não precisa significar vestir uma cor ou defender um partido. Pode significar algo muito mais simples: reconhecer que o país também é construído quando cada pessoa assume a pequena parte da realidade que está ao seu alcance”, afirma.
Além da análise, Marques publicou recentemente o artigo “Não votar também é uma decisão”, no qual aprofunda essas reflexões e convida o leitor a pensar sobre responsabilidade individual, consciência política e o impacto das escolhas, inclusive da decisão de não participar, na construção do futuro coletivo.
Um exemplo trágico ajuda a compreender como a responsabilidade pode se diluir quando várias pessoas estão diante de uma mesma situação. Em junho deste ano, a morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, durante um salto em Limeira (SP), chamou a atenção para falhas na verificação dos equipamentos de segurança. O caso também suscita uma reflexão sobre um fenômeno estudado pela psicologia social: o efeito espectador, associado à difusão de responsabilidade.
Quando várias pessoas presenciam uma situação potencialmente perigosa, cada uma pode supor que outra já percebeu o problema ou tomará a iniciativa de agir. No caso mencionado, a ausência da corda de segurança no equipamento de jump teria sido acompanhada pela expectativa de que alguém faria a instalação.
“Essa expectativa, somada à influência do comportamento dos demais, pode inibir uma intervenção individual. Não é possível afirmar que esse mecanismo explique, por si só, o ocorrido em Limeira, mas ele ajuda a compreender um risco humano mais amplo: quando a responsabilidade parece pertencer a todos, pode acabar não sendo assumida por ninguém”, explica Marques.
Em uma sociedade, esse padrão pode se manifestar para além das situações de emergência: diante de injustiças, problemas coletivos ou decisões políticas, as pessoas podem acreditar que sua voz é dispensável porque alguém mais informado, mais preparado ou mais influente fará alguma coisa.
“Tem ocorrido uma tendência no Brasil de expectativa que se generaliza, e pode ser levar ao enfraquecimento da participação e o fortalecimento de uma cultura de passividade”, alerta o especialista.
Uma das formas de enfrentar esse comportamento é tornar a responsabilidade concreta: em vez de esperar que “alguém” aja, cada pessoa deve identificar qual atitude está ao seu alcance, como alertar, perguntar, comunicar um risco, participar ou cobrar providências.
Na psicologia social, pesquisas sobre intervenção em emergências indicam que reconhecer explicitamente o problema e assumir uma ação específica pode ajudar a romper a inércia coletiva. Na vida cívica, o princípio é semelhante: não precisamos controlar o resultado para reconhecer que nossa participação pode fazer parte da solução.
Sob a perspectiva do comportamento humano, a abstenção não deve ser interpretada de maneira uniforme. Impedimentos concretos, dificuldades de deslocamento e questões pessoais podem explicar parte das ausências. Em outros casos, sentimentos como descrença, frustração, exaustão e impotência podem contribuir para o afastamento. A questão, segundo a reflexão proposta por Marques, é compreender o que acontece quando a percepção de que a participação individual não fará diferença se transforma em motivo para não participar.
Esse fenômeno se relaciona ao conceito de eficácia política percebida, que diz respeito à crença de que a própria participação pode ter algum valor nos processos coletivos. Quando uma pessoa considera sua contribuição irrelevante diante da dimensão de um sistema, pode se sentir menos motivada a agir. Esse mecanismo não explica sozinho a abstenção, mas ajuda a compreender como a sensação de impotência pode favorecer o afastamento de espaços de decisão.
“Quando uma pessoa se afasta da urna por descrença, cansaço, raiva ou sensação de impotência, a eleição continua acontecendo. A escolha é feita com ou sem a participação dela. Por isso, precisamos refletir sobre a diferença entre discordar das alternativas disponíveis e acreditar que não vale a pena participar”, afirma Marques.
A partir dessa perspectiva, o pesquisador propõe uma campanha apartidária de conscientização: “Não votar também é uma decisão. Só que é a decisão de entregar a outra pessoa o direito de decidir por você.”
A reflexão não pede voto para candidato, partido ou ideologia. O foco está na relação entre liberdade individual e responsabilidade coletiva. Para Marques, reconhecer a insatisfação política é legítimo, mas transformar a frustração em afastamento pode reduzir as oportunidades de participação e diálogo.
“Democracia não exige que você ame quem está na disputa. Exige que você não abandone a sua parte na escolha. Patriotismo, neste domingo, não é vestir uma cor. É assumir a responsabilidade pela pequena fração do futuro coletivo que cabe a cada cidadão”, afirma.
A análise também permite uma reflexão que ultrapassa o calendário eleitoral. Na vida cotidiana, quando as pessoas acreditam que suas ações não produzem resultados, podem se tornar menos propensas a participar, propor mudanças ou assumir responsabilidades. Esse padrão não é inevitável, mas evidencia a importância de desenvolver o senso de agência: a percepção de que somos capazes de agir dentro das circunstâncias disponíveis, ainda que não controlemos todos os resultados.
O alerta encontra eco na própria Justiça Eleitoral. Após o primeiro turno, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral afirmou que a Corte trabalharia para reduzir a abstenção no segundo turno. O TSE também reforçou que quem não votou no primeiro turno, desde que esteja com a situação eleitoral regular, pode votar normalmente no segundo.
A proposta de Marques é que o tema ultrapasse a disputa eleitoral e se torne uma conversa nacional sobre presença, consciência e participação. “Você pode não gostar das opções. Pode discordar do sistema. Pode até votar branco ou nulo. Mas existe uma diferença entre comparecer, avaliar as alternativas e se posicionar e simplesmente abrir mão da própria presença. A urna é um dos poucos lugares em que, por alguns segundos, a voz de uma pessoa vale exatamente um voto.”
O segundo turno das Eleições 2026 está previsto para este domingo, 25 de outubro, das 8h às 17h, no horário de Brasília.
