Espetáculo com Luiza Braga conecta memórias familiares, tradições ribeirinhas e narrativas míticas do Pará em uma montagem que mistura teatro, música ao vivo e recursos audiovisuais. A temporada segue até 15 de novembro, em São Paulo.
As histórias transmitidas entre gerações, os saberes das comunidades ribeirinhas e as tradições da Encantaria Amazônida conduzem a narrativa de “Do Ventre à Cabeça”, espetáculo em cartaz no Sesc Ipiranga até 15 de novembro. Idealizada por Luiza Braga e pelo Coletivo Filhos de Iracema, a montagem parte de experiências familiares e referências culturais do Pará para construir uma reflexão sobre ancestralidade, memória e identidade.
Em cena, Luiza reúne relatos de uma mulher ribeirinha de Cametá, no interior paraense, e narrativas míticas da cabocla encantada Mariana, figura ligada à Encantaria e ao Tambor de Mina. A partir dessas referências, a artista aproxima sua própria trajetória das migrações e dos conhecimentos que atravessam a cultura amazônida.
A Encantaria Amazônida, manifestação popular baseada em saberes indígenas e afro-diaspóricos, ocupa um lugar central na dramaturgia. O espetáculo propõe um encontro entre tradição oral, experiências pessoais e práticas culturais preservadas por comunidades tradicionais.
Teatro, música e memória dividem a cena
Com direção de Victor Mendes, a encenação aposta na delicadeza e na transformação dos elementos cênicos diante do público. A atriz manipula objetos ao longo da apresentação, atribuindo novos sentidos a eles e explorando a manualidade como parte da linguagem teatral.
A cenografia de Marisa Bentivegna reforça essa proposta ao criar a sensação de um palco-rio, com margens indefinidas e diferentes espaços que a personagem percorre durante a narrativa.
A música também tem presença constante. A musicista Gisah Preta toca ao vivo, construindo as sonoridades que acompanham a atuação. A direção musical e a trilha são conduzidas por Marco França, enquanto Fabrício Licursi assina a direção de movimento e a preparação corporal.
Outro elemento importante é a voz de Mãe Rita D’Oxum, ialorixá do T.E.U.C.Y., terreiro localizado em Ananindeua, no Pará. Sua participação sonora evoca as mulheres que preservam e transmitem conhecimentos das tradições ribeirinhas e das encantarias.
O vídeo aparece como mais uma camada da encenação, com projeções sobre o couro de um tambor. O recurso associa imagem e memória e reforça a relação entre ancestralidade, aprendizado e transmissão de saberes.
Pesquisa reúne relatos de comunidades tradicionais do Pará
O processo de criação de “Do Ventre à Cabeça” está relacionado à pesquisa desenvolvida pelo Coletivo Filhos de Iracema junto a comunidades tradicionais de terreiro, especialmente à Casa Teucy, no Pará.
O coletivo contribuiu para a pesquisa do espetáculo por meio de entrevistas, resgate de cantigas e compilação de relatos de mães de santo e entidades que integram as tradições da casa. O material ajudou a fundamentar a dramaturgia e a construção das narrativas apresentadas em cena.
O projeto tem origem em uma pesquisa iniciada em 2021, durante a produção do documentário “Mariana: histórias de vida e encantaria”. O estudo também deu origem à série “Pororocas”, produzida pelo Coletivo Filhos de Iracema.
Ao articular essas referências, a montagem aproxima a história individual de Luiza Braga de uma rede mais ampla de memórias e práticas culturais. A proposta é valorizar os saberes populares amazônidas e as formas pelas quais eles permanecem vivos na oralidade, na música e nas relações entre gerações.
Serviço
Espetáculo: Do Ventre à Cabeça, com Coletivo Filhos de Iracema
Temporada: até 15 de novembro de 2026
Horários: sextas-feiras, às 21h; sábados, domingos e feriado de 2 de novembro, às 18h30
Observação: não haverá apresentação em 25 de outubro.
Local: Sesc Ipiranga
Endereço: Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga, São Paulo (SP)
Ingressos: R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia-entrada) e R$ 15 (Credencial Plena)
Vendas: https://www.sescsp.org.br/ ou bilheterias das unidades do Sesc SP
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 60 minutos
Capacidade: 40 lugares
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.
