Espetáculo “Interior” investiga memórias, trabalho e modos de viver fora das grandes cidades

Com dramaturgia de Jhonny Salaberg e direção de Dinho Lima Flor, peça estreia no Sesc Avenida Paulista em 12 de novembro e reúne histórias de trabalhadores de diferentes regiões do país

O que significa viver no interior? A pergunta conduz o espetáculo “Interior”, que estreia no Sesc Avenida Paulista em 12 de novembro. Com dramaturgia de Jhonny Salaberg, direção de Dinho Lima Flor e idealização de Jackson Gleizer, a montagem investiga os sentidos geográficos e subjetivos da palavra, aproximando histórias de cidades brasileiras de questões relacionadas à memória, ao afeto, ao corpo e à imaginação.

A criação parte de uma inquietação sobre a dificuldade contemporânea de sonhar, especialmente nas grandes metrópoles. Em contraste com a velocidade da vida urbana, o interior surge como um território simbólico associado à desaceleração, ao repouso e à possibilidade de imaginar outras formas de existência.

Em cena, experiências pessoais, memórias familiares e histórias compartilhadas se cruzam para abordar relações de trabalho, deslocamentos, oralidade e resistência cotidiana. A temporada segue até 13 de dezembro, com apresentações de quinta a sábado, às 20h, e aos domingos e no feriado de 20 de novembro, às 18h.

Histórias de diferentes regiões do Brasil

A pesquisa do espetáculo reúne as experiências de quatro artistas de diferentes origens: Jackson Gleizer e Sammer Iêgo Lemos, do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais; Joy Catharina, de Piracicaba, no interior de São Paulo; e Lakís Farias, de Ibicuí, no interior da Bahia.

Parte do grupo realizou, em 2024, um intercâmbio de cinco dias no Vale do Jequitinhonha para conhecer de perto a cultura local, os modos de vida e os saberes da região. A experiência contribuiu para a construção de uma dramaturgia poética e documental, que aproxima lembranças individuais de narrativas coletivas.

A encenação articula três camadas narrativas: os depoimentos dos intérpretes, as histórias de quatro personagens — Jacira, Vicente, Rosália e Geneci — e cenas de atmosfera inspiradas em situações comuns da vida interiorana. Conversas entre vizinhos, fofocas e o costume de colocar uma cadeira diante de casa para observar o movimento da rua ganham espaço na montagem.

Migração, trabalho e protagonismo feminino

As personagens apresentam diferentes experiências de partida e permanência. Jacira deixa o interior paulista e vai trabalhar com costura no bairro do Brás, em São Paulo, onde conhece Vicente, migrante do Vale do Jequitinhonha. Antes de chegar à capital para trabalhar em uma metalúrgica, ele também passou por outra região de Minas Gerais, onde atuou no corte de cana ao lado de Geneci.

Enquanto os homens migram em busca de trabalho, Rosália, companheira de Geneci, permanece no Vale do Jequitinhonha, responsável pelo sustento da casa e pelo cuidado da filha. Artesã do barro, a personagem representa mulheres que mantêm a vida familiar e comunitária mesmo diante das mudanças provocadas pela migração.

A história dialoga com a realidade das chamadas “viúvas de maridos vivos”: mulheres cujos companheiros partem para trabalhar em atividades como o corte de cana e a colheita de café, enquanto elas assumem as responsabilidades domésticas e familiares. A personagem também evidencia a liderança feminina e as formas de autonomia construídas por quem permanece.

Gestos cotidianos como memória coletiva

Ao percorrer São Paulo, Minas Gerais e Bahia, “Interior” coloca em cena trabalhadores pouco representados nas narrativas dominantes, como costureiras, boias-frias, artesãs do barro, radialistas e ambulantes. O trabalho manual atravessa a montagem como elemento de sobrevivência, criação e transmissão de conhecimentos entre gerações.

Cana, metal, barro e tecido compõem o universo visual do espetáculo e se relacionam às trajetórias das personagens. Cordas, cornetas, botas e roupas de linho também integram a construção cênica, aproximando corpo, trabalho e paisagem.

A trilha reúne músicas, anúncios de rádio, cantos de trabalho e listas faladas de nomes de rios e cidades. Entre momentos de humor e passagens poéticas, a peça transforma gestos e histórias cotidianas em uma reflexão sobre pertencimento e identidade.

Mais do que tratar o interior como um lugar geográfico, a montagem propõe olhar para os espaços íntimos que cada pessoa carrega. As experiências de quem parte e de quem fica revelam diferentes formas de enfrentar as distâncias, as desigualdades e as transformações provocadas pelo trabalho e pelo chamado progresso.

Serviço

Espetáculo: Interior

Temporada: 12 de novembro a 13 de dezembro de 2026

Horários: Quinta a sábado, às 20h; domingos e feriado (20/11), às 18h.

Local: Sesc Avenida Paulista — Arte II (13º andar)

Endereço: Avenida Paulista, 119, Bela Vista, São Paulo (SP).

Ingressos: R$ 60 (inteira), R$ 30 (meia-entrada) e R$ 18 (credencial plena).

Duração: 80 minutos.

Classificação indicativa: 12 anos.

Acessibilidade: Libras nos dias 19 e 26 de novembro e 3 de dezembro. Audiodescrição nos dias 29 de novembro e 3 de dezembro.

Telefone: (11) 3170-0800.

Transporte público: Estação Brigadeiro do Metrô, a aproximadamente 350 metros do Sesc.

Funcionamento da unidade: Terça a sexta, das 10h às 21h30; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h30.

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