Quarta edição do Cinema no Museu recupera a trajetória da atriz Alice Rezende, que participou de “Veneno” sem receber crédito oficial por décadas
O Museu do Ipiranga realiza no dia 14 de novembro, às 15h, a quarta edição do programa Cinema no Museu. Com o tema “Presenças negras no Cinema Brasileiro”, o encontro integra a programação do Mês da Consciência Negra e propõe uma discussão sobre a contribuição de profissionais negros para a história do audiovisual nacional e os processos que levaram ao apagamento de suas trajetórias.
A programação será realizada no auditório do Museu, com entrada gratuita, e começa com a exibição de “Veneno”, longa-metragem dirigido por Gianni Pons em 1952. Após a sessão, haverá um bate-papo com a cineasta e curadora Tatiana Carvalho Costa, presidenta da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), e com a atriz, diretora e cantora Naruna Costa, primeira mulher negra a receber o Prêmio APCA de Melhor Direção, em 2018. A mediação será conduzida pela pesquisadora Liliane Braga.
Arquivos do Museu recuperam participação de Alice Rezende
Um dos pontos centrais do encontro é a trajetória de Alice Rezende, atriz, cantora e integrante do Teatro Experimental do Negro de São Paulo. Embora tenha participado de “Veneno”, produção da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, seu nome permaneceu sem crédito oficial durante décadas.
O reconhecimento formal de sua participação ocorreu após uma solicitação do curador e antropólogo Alexandre Araujo Bispo, fundamentada em documentos preservados no Arquivo Nery Rezende (ANR), adquirido pelo Museu Paulista da USP em 2020. O acervo foi reunido por Nery Rezende, irmã de Alice, e registra aspectos da vida cultural, social e profissional de duas mulheres negras das camadas populares da capital paulista ao longo do século 20.
A pesquisa sobre esses documentos é desenvolvida por Liliane Pereira Braga, pesquisadora em História e Cultura Material e mediadora da atividade. Entre os registros encontrados estão o roteiro de “Veneno” anotado pela própria Alice, trechos de seu diário sobre a rotina de gravação, correspondências familiares e fotografias dos bastidores. Uma das imagens mostra a artista ao lado do diretor Gianni Pons nos estúdios da Vera Cruz.
O material permite reconstruir a participação de Alice na produção e também evidencia como artistas e trabalhadores negros foram deixados de fora dos registros oficiais da cultura brasileira. A preservação desses documentos amplia as possibilidades de pesquisa e contribui para recuperar histórias pouco presentes nas narrativas tradicionais sobre o cinema nacional.
Filme reúne nomes importantes do cinema brasileiro
Produzido pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz, estúdio que marcou o cinema brasileiro nas décadas de 1940 e 1950, “Veneno” conta com nomes como Anselmo Duarte, Leonora Amar, Paulo Autran, Lima Duarte e Renato Consorte no elenco.
Na trama, Hugo, personagem de Anselmo Duarte, trabalha em uma fábrica de vidros e vive atormentado pela ideia de que sua esposa, Gina (Leonora Amar), o despreza. Entre pesadelos recorrentes e uma percepção cada vez mais confusa da realidade, ele passa a acreditar que pode assassiná-la.
Alice Rezende interpreta a empregada doméstica da residência do casal, personagem que tem papel decisivo no desenvolvimento da história. A exibição do filme, portanto, também oferece ao público a oportunidade de conhecer uma participação que ficou por muito tempo fora dos créditos oficiais da produção.
Cinema no Museu aproxima cinema, história e memória
Criado em 2025, o Cinema no Museu é um programa semestral que aproxima o público de discussões sobre história, cultura e memória por meio de obras audiovisuais. Cada edição relaciona os filmes apresentados aos acervos, às pesquisas e às atividades desenvolvidas pelo Museu do Ipiranga.
A primeira edição exibiu o documentário “Tava, A Casa de Pedra” (2012). Na sequência, o programa apresentou “Todos os Mortos” (2020) e, na terceira edição, realizou a pré-estreia do documentário “Mulheres Artistas, Subvertendo a Submissão”.
A quarta edição amplia esse debate ao colocar em evidência a presença de profissionais negros no cinema brasileiro e a importância da preservação de arquivos para reconhecer suas contribuições.
