Adaptação e direção de Ivan Andrade, montagem aborda desejo, busca por afeto e as contradições do amor em temporada gratuita até dezembro
O que acontece quando alguém tenta controlar os próprios sentimentos como se fossem uma reação do organismo? Essa é uma das questões exploradas em “Amália”, espetáculo baseado em conto de Newton Moreno, um dos autores premiados da dramaturgia nacional. Com adaptação e direção de Ivan Andrade, a peça está em cartaz no Teatro Estúdio, em São Paulo, até 22 de dezembro de 2026.
Interpretada por Lara Córdulla e Marcos Azevedo, a montagem acompanha uma personagem que, desde a infância até a vida adulta, vive em busca de um amor definitivo. Ao longo dessa trajetória, Amália percebe que o que a mantém em movimento não é exatamente o coração, mas o desejo despertado pelo próprio olhar.
A história parte de uma investigação íntima e ganha contornos teatrais ao abordar a dificuldade de compreender e controlar os sentimentos. Na adaptação, o tema também se relaciona às transformações comportamentais das últimas décadas, especialmente às mudanças provocadas pelas novas tecnologias de comunicação e pela aceleração dos fluxos de informação.
O olhar como origem do desejo
A direção explora a relação entre olhar, conhecimento e desejo a partir de referências da mitologia e da tradição artística. Ivan Andrade recupera histórias como as de Orfeu e Eurídice, Narciso, Édipo e Medusa para discutir o olhar como algo que pode revelar, mas também conduzir à perda e à autodestruição.
Na interpretação do diretor, a personagem tenta investigar o próprio organismo para compreender seus sentimentos e, assim, controlá-los. Essa busca se torna parte do conflito central da narrativa: Amália não quer apenas entender o que sente, mas encontrar uma maneira de interromper a inquietação provocada pelo desejo.
O espetáculo mantém a dimensão trágica da história, mas aposta em uma encenação dinâmica e bem-humorada. As contradições presentes no conto original são levadas ao palco sem oferecer respostas imediatas ao público.
Uma reflexão sobre o amor e a necessidade de encontro
Para Newton Moreno, Amália representa uma personagem movida por uma necessidade intensa de amar. O autor relaciona essa característica a um contexto em que os vínculos afetivos podem ser atravessados pela rapidez das relações e pela busca por satisfação imediata.
A trajetória da personagem também amplia a discussão para além do romance. O amor aparece como encontro, partilha e reconhecimento do outro, mas também como uma palavra que pode ser desgastada e transformada em produto.
A adaptação propõe, assim, uma reflexão sobre a necessidade de reconstruir vínculos e olhar para a humanidade com interesse e disponibilidade. A busca individual de Amália passa a dialogar com uma questão coletiva: como manter o desejo de encontro em um mundo marcado pela velocidade e pela superficialidade das relações?
Sinopse
Para tentar acalmar os sentimentos que a perturbam, Amália decide investigar o próprio organismo e chega à conclusão de que precisa anestesiar o coração, órgão que acredita ser responsável por sua pulsão insaciável. Ela é salva por um primo segundos antes de aplicar a injeção. A partir desse momento, percebe que a origem de suas buscas intermináveis não está no coração, mas no olhar desejante que nunca descansa.
Serviço
Espetáculo: Amália
Temporada: Até 22 de dezembro de 2026.
Dias e horários: Segundas e terças-feiras, às 20h.
Local: Teatro Estúdio.
Endereço: Rua Conselheiro Nébias, 891, Campos Elíseos, São Paulo (SP).
Ingressos: Gratuitos, com retirada pelo Sympla ou na bilheteria do teatro.
Retirada online: https://bileto.sympla.com.br/event/128729
Duração: 70 minutos.
Classificação indicativa: 12 anos.
Capacidade: 112 lugares.
Dramaturgia e direção geral: Ivan Andrade.
Conto original: Newton Moreno.
Elenco: Lara Córdulla e Marcos Azevedo.
Projeto realizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet).
